quinta-feira, 17 de junho de 2010

CARACTERÍSTICAS NEOREALISMO - LADRÕES DE BICICLETA -

Quais são os detalhes presentes em Ladrões de Bicicleta que tornam evidente o que é o neo-realismo e como ele passa a influenciar a história do cinema? Vamos a eles:



Questão Social: Uma Itália sofrida, quase nas ruínas. com problemas sociais evidentes e claros. Isso é mostrado por diversas vezes na produção, principalmente no início quando é evidenciada toda a dificuldade dos cidadãos em conseguirem um emprego. Além disso, o autor demonstra sempre a intenção de focar nessas multidões pobres e sofridas, seja com estas se divertindo ou então realizando seus prazeres com pouca coisa, já que era apenas isso que podiam ter naquele período.




Consequências da Guerra: É mostrado em alguns momentos imagens de uma Itália em busca de sua reconstrução, além disso, por diversos momentos alguns figurantes comentam e falam sobre a guerra. É engraçado notar que o protagonista não fala sobre o tema, quem realmente toca no assunto são outros pessoas, quem sabe seja uma escolha do autor, para não evidenciar tanto a questão, mas mostrar pelas entrelinhas como ela influenciou em todo o contexto.



Temas do Cotidiano: Diversas cenas retratam o dia a dia dos italianos e mostram as consequências da guerra dentro de uma família, situações que todos passavam no período, mas apenas viam e refletiam com o filme, podendo ir a fundo e ver que o problema estava generalizado. O próprio roubo da bicicleta entra nisso, é feito quando o protagonista está trabalhando e a maioria dos civis nem se preocupam com o furto, parecendo estarem acostumados com aquilo. E assim vai sendo durante toda a produção, a ida a um restaurante, o dia do jogo, enfim, temas do cotidiano sendo os responsáveis pelo desenrolar da história.




Anti-Estúdio: A maioria das cenas são feitas ao ar livre, poucas são realizadas em ambientes fechados. Característica marcante do neo-realismo e evidenciada nesse filme.




Coletividade: Entra nas questões sociais, embora o filme também foque na história do personagem, o tema dele está totalmente ligado a coletividade e ao momento vivido pelos indivíduos desta. Ele é apenas um exemplo dentro da multidão, escolhido para trazer a tona toda a problemática existente no período.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ladrões de Bicicleta, Vittorio de Sica 1948


Ladrões de Bicicleta é um dos mais aclamados filmes do Neo-Realismo Italiano, período, que como vimos anteriomente no blog, contava histórias de consequência da guerra que acabava de ter chego ao fim, no meio dos anos 40. O filme é uma obra de Vittorio de Sica e foi lançado em 1948. A história se baseia no desempregado Antonio Ricci, que em meio a uma sociedade italiana caótica com o fim da segunda guerra mundial, acaba arranjando um emprego no qual era dependente do uso de uma bicicleta para se locomover, e conseguir assim, colar os cartazes que garantiriam seu ganha pão. O emprego seria algo de grande valor para Antonio, uma vez que em seus cálculos, lucraria uma bom dinheiro, porém, havia um problema que acaba sendo fundamental no desenrolar da trama: Antonio não tinha uma bicicleta e como não podia deixar de aceitar esse emprego, já que a lista de espera era enorme, como notamos na primeira cena do filme, ele acaba tendo que mentir, afirmando que tinha o meio de locomoção. Para conseguir a bicicleta, ele vai para sua casa onde ao lado de sua esposa Maria, vende alguns de seus pertences para poder comprar o objeto. Nesse inicio de produção, já conseguimos notar diversas características do neo-realismo, a primeira é uma Itália em ruínas com diversos problemas de ordem social, a segunda é o enfoque na simplicidade das cenas, sempre com uma multidão de pessoas em praticamente todas as tomadas e com um fundo musical presente, seja com trilhas que aumentassem a dramaticidade da situação, ou com vozes, em momentos que o protagonista estava no meio das multidões, aumentando a realidade e nos inserindo no contexto, mesmo com o espectador não estando lá de corpo presente.


Feliz com a bicicleta e conseguindo iniciar sua carreira como colador de cartaz, é possível começar a presenciar como era o dia a dia de Antonio em sua casa, e o carinho dele para com seu filho Bruno. Abrindo um parêntese, no percurso de pai e filho até o trabalho, é impossível não relembrar de “A vida é Bela”, de Roberto Begnini, filme vencedor de Oscar e com vários traços do neo-realismo. Voltando a Ladrões de Bicicletas, em um destes dias, Antonio acaba tendo sua bicicleta roubada, o que joga no lixo toda sua possibilidade de crescer na vida e isso acaba levando o filme a um novo rumo, como veremos nos próximos parágrafos. O interessante é que o autor frisa na importância dessa bicicleta, fazendo uma crítica a sociedade de consumo, e porque não, ao futuro dos trabalhadores, mostrando que um instrumento de locomoção era mais importante do que a própria presença de Antonio, assim como acaba sendo atualmente na relação pessoas/computadores.


Desesperado atrás da bicicleta, Antonio e seu filho Bruno, companheiro inseparável, saem à caça do objeto furtado. Notamos o descaso da policia italiana com relação ao roubo de um mero trabalhador endividado, também vemos diversas críticas a uma sociedade na qual as pessoas são julgadas pela aparência, isso ocorre quando pai e filho vão a uma pizzaria e acabam sendo malvistos pelos frequentadores do local. Também podemos perceber em diversas situações, um andar cabisbaixo e até em alguns momentos “corcundas” de Antonio e Maria, que certamente visam demonstrar uma inferioridade deles diante dos demais figurantes, isso devido à situação calamitosa em que viviam e aos julgamentos que sofriam. Mesmo tendo bastante ênfase na multidão e fazendo uma crítica a sociedade italiana e ao momento em que o país vivia, o filme também foca suas atenções para as relações pessoais do protagonista, em especial com seu filho, como no momento em que ele o agride e depois se arrepende, quando pensa que o menino estava sendo afogado. Mas, ainda assim estas relações estão sempre presentes em meio ao contexto social, e não acabam sendo banalidades dentro do filme, elas estão ocorrendo devido a todo o sistema e todos os problemas que os personagens vinham passando, Antonio só deu um tapa em Bruno pelo “stress” da situação do roubo da bicicleta, aliado a angustia na busca por encontrá-la.


Desistindo de encontrar seu meio de locomoção, Antonio Ricci toma uma atitude drástica, que acaba deixando quem assiste apreensivo, principalmente pela trilha sonora dramática inserida na situação. Ricci para tentar salvar sua vida e deixar de ser um miserável, se vende ao sistema, e busca uma solução mais fácil, tentando roubar uma bicicleta de outra pessoa. O que nos leva a pensar: será que o primeiro ladrão não roubou devido a estar vivendo uma situação complicada, assim como Antonio? Mas, diferente do que aconteceu com o primeiro ladrão, agora o protagonista acaba se dando mal, e é imobilizado pela multidão, ela mesma, sempre presente no filme. Quando você está puto, emocionado e triste ao ver que tudo dá errado com aquele cidadão, Bruno aparece chorando e desesperado atrás do pai, fazendo com que o homem lesado resolva soltar Antonio, dando uma última chance para o agora desempregado, isso é um final feliz? Não, mas o diretor nos mostra que o que é ruim, poderia ser ainda pior e esse era a sociedade do pós guerra na Itália, queiramos ou não.


E assim termina essa belíssima produção, um filme profundo, com várias críticas ao momento vivido na Itália, com apelo sentimental, enfim, uma obra que exemplifica bem, o que foi e quais eram as características principais do neo-realismo italiano. Em um próximo post, esmiuçarei características desta escola e quando elas estão presentes no filme, para que assim, a Engel Cinema, consiga focar e buscar uma produção que siga a mesma linha dessa importante escola do cinema mundial.

Autor: Luiz Henrique de Oliveira

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ALGUMAS PRODUÇÕES DO NEO-REALISMO ITALIANO

Ossessione, 1942, Luchino Visconti

Uma das primeiras obras do neo-realismo que acabou sendo implacavelmente perseguida pelas autoridades, sendo censurada e praticamente destruída. No final da guerra, não havia disponíveis cópias do filme, a perseguição se deveu pela critica aos rumos que a Itália vinha tomando que eram evidenciados na produção.


Roma, Cidade Aberta 1945 Roberto Rosselini

Essa obra marca o surgimento do cinema que tratava da situação social rural e urbana que acontecia na Itália com o fim da segunda guerra mundial. Como o público alvo era as classes menos favorecidas, o autor adotava uma linguagem simples e sem muita complexidade, que veio a se tornar característica do neo-realismo. O filme possui imagens clandestinas registradas durante o período de guerra, que fazem das pessoas comuns atores da produção.


Paisà 1946 Roberto Rosselini

Outro filme com características neo-realista em que o autor busca explorar o contato entre o povo americano e italiano, visando fazer uma apologia à liberdade e mostrar a importância da luta pela igualdade entre classes e povos.


Ladrões de Bicicleta Vittorio de Sica 1948

Mais um filme que tratava de questões da realidade, mostrando o que acontecia com o “povão”, também é um marco pela utilização na produção de atores não profissionais.

sábado, 22 de maio de 2010

NEO-REALISMO E SUAS QUESTÕES


Como vivia a Itália no surgimento do neo-realismo? Vivia as ruínas do pós guerra, com perdas econômicas, humanas e financeiras. Além de não haver dinheiro nem para a alimentação da população, o sul do país, chamado de Mezzogiorno, ainda era palco de batalhas entre os exércitos aliados e alemães, ou seja, o grosso da guerra havia acabado, porém, ainda haviam focos de conflitos em regiões mais afastadas. Mesmo com todos esses problemas, o neo-realismo foi possível de ser realizado, o que para muitos era algo improvável, desta feita, alguns princípios foram fundamentais para o funcionamento desta escola, dentre eles:

1- A utilização de pessoas comuns como atores dos filmes. Mesmo com estas não tendo contato nenhum com as câmeras em suas vidas, elas eram peças fundamentais na produção, o que consequentemente barateava e simplificava seus custos;

2-Filmagens ao ar livre, deixando de lado a utilização de estúdios, e trazendo a tona as maravilhas naturais e equívocos sociais da Itália, fazendo até mesmo um contraste entre ambos;

3-Ao não utilizar estúdios e dispensar em algumas produções atores, ocorria um consequente barateamento nos custos, o que não gerava um empobrecimento na produção;

4-Temas atuais do cotidiano, aquilo que estava em foco na sociedade, gerando curiosidade e reflexão nas pessoas que assistiam aos filmes. Além disso, as obras traziam a possibilidade de você assistir algo que acontecia em outras regiões das quais as pessoas não tinham contado.



Os temas tinham cunho social, apelando para o sentimental, mostrando por diversas vezes a exploração e lutas da classe trabalhadora, o simples acabava se tornando complexo em meio à possibilidade de reflexões que as obras traziam a tona para o espectador. Em muitas destas produções, os próprios nativos da região eram os protagonistas, o que dava mais ênfase no “realismo” deste período. Com o neo-realismo ficou provado que era possível fazer cinema sem recursos, mas com qualidade, sendo assim uma escola marcante na história cinematográfica. Um estudante de cinema, jornalista, precisa e deve conhecer o neo-realismo para compreender o cinema atual e analisar obras que trazem a tona este cunho social.

A Engel Cinema espera conseguir traduzir estas problemáticas em sua análise do neo-realismo, os períodos conturbados são aqueles que mais trazem a tona questões recorrentes nesta escola, e embora muitos pensem que não vivemos uma época propicia para este tipo de produções, a realidade é outra e pode ser encontrada em nossa própria cidade, e como não, do lado de nossa universidade(Vila “Pinto”).